Clareamento Sem Riscos
Descolorir, ao pé da letra, significa remover todos os pigmentos dos fios, deixando-os… sem cor. Para que isso aconteça, o colorista usa um produto específico, formulado a partir de um princípio ativo chamado persulfato de amônia. “Esta substância age na fibra capilar em conjunto com as moléculas de oxigênio presentes no oxidante (água oxigenada), que será misturado ao descolorante. Assim, a amônia amolece a queratina dos cabelos, atravessa a cutícula, penetra no córtex, incha as fibras e desprende o oxigênio, principal responsável por clarear o pigmento dos cabelos naturais (melanina) e também dos coloridos”, explica Sandra Damas, educadora da marca L’Oréal Professionnel. Parece incrível, mas foram os romanos os primeiros a descolorir os cabelos, por volta de 100 anos d.C. Dá para imaginar?É claro que, de lá pra cá, muita coisa mudou, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento das fórmulas de clareamento, que não só estão menos agressivas para os fios, a pele do couro cabeludo e a saúde de profissionais e clientes, como mais eficientes. “Hoje, os produtos têm uma volatilidade quase nula, ou seja, já não dispersam resíduos no ar durante a sua manipulação, nem causam problemas respiratórios por conta do uso contínuo”, continua Sandra. Como se não bastasse, agregam agentes cosméticos de última geração que facilitam a aplicação e ainda protegem a fibra capilar, mantendo sua hidratação natural intacta e combatendo o ressecamento excessivo. Colágeno, queratina e extrato de aloe vera, só para citar alguns. Mas, apesar de toda a tecnologia utilizada nos componentes e da profissionalização cada vez maior dos cabeleireiros, a descoloração ainda é uma técnica que exige cuidado e informação.
Estratégia minuciosa
Uma vez descoloridos, os cabelos passam a exigir uma manutenção bastante específica. É que o processo não remove apenas os pigmentos dos fios, como também vários outros componentes internos, incluindo sais minerais e muitos nutrientes importantes. “Na prática, trata-se de um cabelo desidratado e sensibilizado, que se torna mais vulnerável até diante das agressões externas consideradas normais no dia-a-dia da mulher moderna, como lavar diariamente a cabeça, tomar sol e fazer escovas com frequência”, lembra Giselia Dias, proprietária do salão Fios & Arte, no Rio de Janeiro. “Além de estar disposta a voltar ao salão semanalmente e retocar a raiz (no caso de um clareamento total) a cada 20 dias, a cliente vai precisar gastar mais com xampus, condicionadores, máscaras e leave-ins específicos e de boa qualidade, além de tratamentos de reconstrução, indispensáveis para devolver a vitalidade desses fios”, alerta a cabeleireira. Ela diz que prefere recorrer aos produtos sem amônia (substituída por um agente alcalino suave), considerados mais seguros até para quem tem cabelos frágeis. Afinal, mesmo quem sonha com um visual platinado como o de Lady Gaga não abre mão de uma cabeleira brilhante, com aparência saudável e bem- tratada.
Por isso mesmo, antes de proceder a qualquer tipo de clareamento – e até mesmo mechas, reflexos e balayage –, o profissional precisa fazer um diagnóstico preciso do tipo de fio que será modificado, pesquisando inclusive o histórico desse cabelo. O colorista tem que saber que outros produtos ou químicas já foram usados pela cliente anteriormente, e se ela tem alergia aos princípios ativos que vão ser usados a partir de então. “Mesmo um cabelo natural corre o risco de romper durante a descoloração”, adverte Giselia.
Outro detalhe importante é conhecer muito bem cada etapa do processo de aplicação do descolorante usado no seu salão. “Cada fabricante investe em técnicas diferentes. Logo, é imprescindível usar o pó na medida recomendada na bula e controlar o tempo de ação do produto na fibra, assim como respeitar o intervalo de tempo entre uma nova aplicação da química, pois a exposição excessiva também pode causar sérios danos aos fi os”, diz Gisele Quintino, técnica de desenvolvimento de produtos da Truss Cosméticos. Em alguns casos, uma nova descoloração só é permitida três meses depois.
Presidente da Sociedade Brasileira para Estudos do Cabelo do Rio de Janeiro, a cirurgiã e especialista em medicina estética, Dra. Joana Darc Diniz lembra a importância de se optar por condicionadores termoativados sem enxágue e formulados com silicones na manutenção diária dos cabelos clareados: “São produtos que formam um fi lme protetor ao redor dos fi os, retendo a umidade e evitando o frizz. Quando os fi os estão danifi cados, indico ainda cauterizações regulares com queratina, aplicadas com a chapinha (não confundir com escovas progressivas). É um tratamento que ajuda a preencher os espaços abertos entre as cutículas por conta da agressão química e que ainda pode ser combinado a uma terapia de reconstrução capilar”, afi rma.
GRAU DE CLAREAMENTO
É o tempo de exposição à fórmula descolorante que vai determinar o grau de clareamento dos mesmos. Mas outros fatores também infl uenciam. Um deles é a espessura dos fi os: os cabelos mais grossos, por exemplo, são mais difíceis descolorir. Uma raiz com pigmentos naturais, por outro lado, clareia rapidamente. É por isso que o mercado dispõe de emulsões reveladoras e oxidantes disponíveis em versões que variam entre 10, 20, 30 e 40 volumes. “Quanto maior a volumagem, maior será o teor de amônia presente na fórmula e maior também será o grau de clareamento. Nos fi os previamente coloridos, o tempo de exposição à ação do produto será mais longo, pois remover pigmentos artificiais dá mais trabalho”, ensina Gisele Quintino. Portanto, escolher a versão mais indicada para cada cabelo também exige critérios, afi nal, uma vez destruída, a haste capilar não consegue voltar ao normal.
Através da oxidação, os pigmentos são descoloridos progressivamente. Diretor técnico da Revlon Professional, Gustavo Mafi o explica que todo cabelo tem três pigmentos básicos – o amarelo, o vermelho e o azul. “Na descoloração, o primeiro a ser removido é o azul, seguido pelo vermelho e, por último, pelo amarelo. Ao longo do processo de ação da química, é possível ver um cabelo escuro passar por uma tonalidade vinho e, depois, avermelhada, alaranjada e amarelada. O amarelo é um pigmento difícil de ser removido. Por isso, quando descolorimos um cabelo até a altura de tom 10 (louro-claríssimo), ele tende a fi car amarelado. Para neutralizar este efeito, o profi ssional deve aplicar uma coloração irisada”, ensina.
Não por acaso, muitas versões modernas de descolorantes já vêm com pigmentos azulados em sua composição ou com adição de ativos, como o persulfato de potássio, que também ajuda a evitar o surgimento de tons quentes, mantendo os fios brilhantes. Outras têm consistência cremosa – detalhe que permite variar a quantidade do oxidante na mistura, de acordo com a técnica de clareamento escolhida. Por conta de tantas evoluções, utilizar papel-alumínio para ajudar na ação das mechas e reflexos, por exemplo, já é desaconselhado. Folhas com velcro desenvolvidas só para isso, laminado e plástico são materiais menos abrasivos, pois não deixam resíduos metálicos na fibra capilar.
Recursos poderosos
Sem dúvida, os descolorantes são ferramentas capazes de produzir grandes transformações quando aliados a boas técnicas e à manutenção adequada dos fios. Basta levarmos em consideração que as mechas nunca saem de moda, como lembra a consultora da Truss: “Hoje, dificilmente as mulheres optam por uma única cor escura. As luzes e a balayage dão movimento e vida aos cabelos, além de valorizar os cortes”. Entre as tendências de clareamento para o verão o que vem forte por aí são as transparências – também chamadas de mechas translúcidas. “Estas técnicas são usadas entre as camadas de cor para criar uma luminosidade interna, muito sutil, que proporciona um look com sensação de movimento e brilho. Nada de mechas marcadas e contrastantes. O conceito da vez é a naturalidade”, diz Gustavo Mafio.
Além do trabalho com mechas, o descolorante também é um recurso indispensável na hora que o profissional deseja mudar completamente a cor de um cabelo colorido, uma vez que coloração não clareia. Então, quando uma cliente chega ao salão com um tom castanho-escuro e pede para o cabeleireiro deixar o cabelo bem claro ou louro, é hora de fazer um processo denominado decapagem ou limpeza de cor cosmética. Só depois desta etapa será possível aplicar a nova cor desejada. Importante lembrar: o pó descolorante não deve ser aplicado em sobreposição, ou seja, mais do que duas vezes no mesmo fio. Caso contrário, corre-se o risco de enfraquecer e até parti-lo.
E quem não pode nem sequer pensar em descolorir o cabelo? Primeiramente, clientes grávidas ou com irritações no couro cabeludo. Depois, aquelas com colorações progressivas e à base de metais. “Quem tem relaxamento ou permanente à base de hidróxido de sódio e guanidina também não deve se submeter a esse tipo de clareamento, pois essas químicas são incompatíveis”, lembra a cabeleireira Jaqueline Alves, do salão carioca Visage Coiffeur. Já quem tem relaxamento com tioglicolato de amônia até pode usar descolorantes, mas sempre depois de fazer um teste de mecha capaz de determinar a força ideal do oxidante a ser aplicado, uma vez que o cabelo descolorido é muito poroso e absorve ativos de transformação rapidamente.
Depois de passar pela transformação, não custa reforçar: é hora de devolver nutritivos aos fios. Sérgio Marucci, gerente técnico da Mediterrani Professional, recomenda sessões de reconstrução capilar à base de extrato de ostra, um complexo biotecnológico rico em proteínas, aminoácidos, lipídios e substâncias hidratantes de ação profunda. Já Jaqueline Alves indica a hidratação capilar desenvolvida com óleo de oliva, que é rico em vitaminas A, D, K e E, para dar brilho aos cabelos. Primeiro, eles recebem uma máscara específica, cuja ação é potencializada pelo calor do aparelho Acelerador Químico. Para selar a cutícula e facilitar a absorção da máscara, criando uma barreira e prolongando o efeito do condicionador, aplica-se o óleo de oliva orgânico, levemente aquecido. O profissional passa um pouquinho nas mãos e espalha no comprimento dos fios secos – tratamento inspirado na beleza da rainha egípcia Nefertiti. Muito chique, não é mesmo?
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